Jun 25, 2013

"Cortem-lhe as pernas"

Há muito mas muito tempo, num reino muito distante um Rei muito bondoso adoeceu. Os sábios e curandeiros pernoitavam ao seu lado, com curas e mesinhas para tentar salvar a sua vida.
Certa noite, num sonho, uma bruxa apareceu ao Rei e disse-lhe:
-Tua vida salvarás com a luz de Tornerá!
O Rei assim que acordou chamou todos os seus sábios e contou-lhes o sonho. Nunca nenhum tinha ouvido falar de tal luz.
Um dos criados mais velhos ouviu a conversa e pediu autorização para falar:
-Meu senhor! Posso falar?
-Fala meu caro homem!
-Já ouvi falar dessa luz. Está a iluminar o fim da Terra para que as pessoas não caiam no abismo do Nada.
Os sábios olharam uns para os outros espantados.
-Meu, senhor! Vai acreditar num servo?
-E porque não devo acreditar? Se vocês que possuem a sapiência e não me sabem dar resposta!
-Meu caro homem, como se chega a esse local?
-Dizem que é muito mas muito longe! Só alguém muito rápido conseguirá chegar lá e voltar.
Os sábios falavam baixinho uns com os outros, numa raiva e inveja alucinante.
-Calem-se! Agora saiam todos que preciso pensar!
Todos saíram.
No dia seguinte, o Rei mandou chamar os homens mais rápidos do reino para uma prova no palácio.
Ordenou que fossem colocadas estacas nos limites das suas terras. Os concorrentes teriam que apanhar as estacas e regressar o mais rápido possível. O mais rápido receberia uma recompensa que se multiplicava por 10 se conseguisse depois a luz de Tornerá.
Vieram muitos concorrentes, jovens, atletas e fortes. Os sábios construíram para um deles uma poção mágica que acreditavam ser invencível.
A prova começou.
Passada uma hora. Um dos concorrentes chegou com as estacas todas: um jovem magricela, pobre, sem ar de atleta e de nome Fesado.
O Rei, ao observar o vencedor temeu pela sua vida, mas era a sua única esperança.
Assim sendo, Fesado partiu no dia seguinte. Os sábios muito zangados mandaram um assassino partir atrás dele e cortar-lhe as pernas.
Os dias passaram e o rei definhava. Passado, uma semana, numa manhã de nevoeiro cerrado, Fesado chegou ao palácio com uma lanterna na mão que o orientava no meio das condições atmosféricas adversas.
Entrou logo no palácio e encaminharam-no para os aposentos reais.
O Rei já mal falava e sussurrou:
-Conseguiste?
-Meu caro, senhor! Corri o mais depressa que pude, fugi a quem me queria mal e ao chegar ao fim da Terra encontrei uma mesa com esta lanterna mesmo no meio. Aproximei-me. Do outro lado da mesa não havia nada! Metade das pernas estava em Terra e a outra metade pairavam no ar. Nesse nada.
-O que fizeste?
-Meu senhor tive receio que ao retirar a lanterna esta caísse antes de eu a apanhar. Pensei, que teria que arranjar uma maneira de manter o mesmo peso no centro da mesa. A única coisa que trazia comigo eram as moedas de ouro que havia ganhado. Então aproximei-me. Quando ia a fazer a substituição chegou um cavaleiro negro a cavalgar e a gritar:
- Cortem-lhe as pernas!
-Quem era?
-Não sei meu senhor! Não tive tempo. Com o susto peguei na lanterna, deixei o saco e fugi. O cavaleiro que vinha em minha direção, não conseguiu travar o cavalo a tempo, bateu na mesa e caiu no Nada.
-Traz-me a lanterna!
O Rei olhou para a lanterna e a esta começou a girar sobre si mesma. A rodar, a rodar em torno de uma base.
O rei fechou os olhos com a luz. Na sala fez-se silêncio. Temia-se o pior!
Passados alguns momentos a lanterna parou de tornear e apagou-se. O Rei abriu os olhos e levantou-se da cama como se nada tivesse acontecido.

Fesado, foi recompensado, ficando como homem de confiança do Rei. Os sábios que tinham mandado cortar as suas pernas foram descobertos. Sua majestade era demasiado bondosa. Então obrigou-os a ir a pé até ao fim da Terra, colocar a lanterna no seu devido lugar. Pois o início do Nada deverá ser bem visível para todos os que lá perto conseguirem chegar.

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