Dec 2, 2011

O meu pequeno almoço!

Acordo com as canções das crianças que passam, de mão dada com os adultos, a caminho da escola. Não preciso de despertador. Os seus sorrisos são a minha música matinal.
As noites já são frias. Os cobertores que tenho são insuficientes. Preciso arranjar mais.
O passar das crianças é sinal que tenho que me levantar e arrumar o quarto. Não gosto de ter as coisas desarrumadas. Pode aparecer alguém para me visitar e dá mau aspecto ter a cama desfeita.
O que será o meu pequeno-almoço? Ainda tenho algumas moedas no bolso. Vou comprar um pão.
Entro na padaria e uma senhora arruma a prateleira dos bolos. Há tanto tempo que não como um. Na ceia de Natal, talvez.
-Bom dia! Quero uma carcaça!
A senhora olha de lado e continua a arrumar os bolos.
-Desculpe, minha senhora! Bom dia! Quero uma carcaça, por favor!
O silêncio mantem-se apenas perturbado pelo barulho da colocação dos tabuleiros das bolas de Berlim e dos pastéis de nata.
Será que não ouve?
-Minha senhora! Quero uma carcaça!
A senhora, finalmente e depois da insistência lá se vira. Nas prateleiras dos pães, estão os mais frescos e outros que pareciam encarquilhados. Deveriam ser do dia anterior.
Pega numa destas carcaças envelhecidas, coloca num saco e pousa na banca pois chega mais uma cliente.
Uma senhora loura com um caniche no colo. É engraçado o cão. Adoro animais.
Um dia tive um rafeiro que dormia aos pés da minha cama. Era um amigo fiel. Só que um dia foi levado para o canil municipal. Ainda me lembro como se fosse hoje. Fui lá. Toquei a porta e um senhor veio abrir.
-Desculpe! Queria o meu cão, o Tó!
-Como é o seu cão? Têm ai os documentos do animal?
-Documentos? Não, não tenho! O Tó apareceu um dia ao pé da minha casa e por ali ficou.
-Desculpe mas sem comprovativo que o cão é seu não lho posso dar. Só se o quiser adoptar.
-Adoptar? Bem, ele é o meu melhor amigo. Sim, quero! Posso ser o “pai dele”.
-Então vá ali á secretaria para preencher os documentos.
Fui à secretaria e deram-me um papel para eu preecher. Pus o nome e logo a seguir pediam a morada. Entreguei os papeis à funcionária e sai.
A senhora loura, na padaria:
-Olá Dona Maria! Têm ai um mimo para o Fofinho?
-Claro, Doutora! Temos sempre aqui pães com pouco sal.
A senhora da padaria agachou-se e nas suas mãos trouxe uma carcaça em forma de osso e deu ao caniche, colocando-o na boca do animal.
-Minha senhora, a minha carcaça, sff! – Resolvi insistir.
Peguei no saco com a carcaça envelhecida, dei-lhe o dinheiro e sai. Fui para a minha cama comer.
Está frio e o pão duro mas sabe bem pois hoje ainda tive dinheiro para comprar. O osso sem sal se calhar era mais fresco mas não quero pensar nisso.
-António, tens que sair! Já sabes que nós deixamos-te aqui passar a noite mas não podes ficar aqui durante o dia.
É o Agente da PSP. Eles são simpáticos em me deixar dormir neste banco de jardim com muita iluminação noturna por isso agora tenho que ir.

Participação no tema de Dezembro da Fabrica das Letras: Indiferença

5 comments:

Catsone said...

Muito bom! O twist final é interessante e a crítica social também.
Congrats.

PS: tinha que ser um caniche, certo?

Diário de um Anjo said...

Obrigado catsone!
O caniche é um cão com um estigma de fino:)

Orvalho do Céu said...

Olá,

" Das alturas orvalhem os céus,
E as nuvens que chovam justiça,
Que a terra se abra ao amor
E germine o Deus Salvador"...

Hoje, passando por Niterói, (longe de onde moro) vi tanta indiferença ao meu redor... como a coisa mais natural do mundo... que pena!!! A gente se acostuma... com o que não deveríamos...

Fico tão sem palavra para agradecer o carinho imensurável com que me cumula ao longo do ano que só posso lhe dizer que:
Seja muito abençoado e feliz, amigo!!!
Abraços fraternos de paz e FELIZ NATAL... apesar de qualquer vestígio de dor em seu coração...

"Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes,

e então saberás que eu me feri e também me curei."

(Tagore)

Utópico said...

Existem por aí uns miseráveis que dão mais importância aos caniches que às pessoas.

Um texto excelente, e infelizmente, muito real

Aproveito para desejar um Feliz e Santo Natal

http://utopiarealista.blogspot.com/2011/12/feliz-natal.html

Diário de um Anjo said...

obrigado utopico
feliz natal