Sep 20, 2011

Um poste é sempre um poste

Saído da fábrica, acabadinho de nascer, estava um poste numa camioneta da autarquia. Ia ser colocado numa das ruas mais movimentadas da cidade.
-Já sabes para onde vais? – Perguntava um banco de jardim.
-Sim, ouvi uma conversa dos homens a comentarem que, me iam colocar na Avenida da Liberdade e pintar de cor-de-rosa.
-Que giro! Eu também vou para lá! Também vou ser cor-de-rosa mas com um círculo branco. Será que vamos ser vizinhos?
Chegados à Avenida, sofreram os solavancos da camioneta, a tentar subir o passeio. Primeiro tiveram que esperar que um reboque tirasse um dos carros que estava a tapar as obras. Depois, a subida e por fim a travagem em cima da calçada portuguesa.
-Ai, ai, estou todo dorido!
-E a mim, doem-me os pés. Bati contra uma das paredes da camioneta na subida. Pensemos positivos! Vamos viver o resto da vida sossegadamente. Ser apreciados por turistas. O que pode correr mal?
Foi um dia bem comprido. A grua, para colocar o poste, demorou a chegar por causa do trânsito e já o banco do jardim estava pintado e o poste ainda estava na camioneta deitado à espera.
-Que tal? A vista é bonita?
-Sim, é linda! Vamos ficar mesmo em frente ao Teatro Tivoli. As estrelas de teatro vão passar todas por aqui. Vai ser o máximo!
Chegada a grua, o poste foi colocado no seu local, entre as árvores. Mal via o teatro. Aliás só via mesmo o telhado do prédio. Dali, dificilmente veria os artistas.
Após a sua implementação, seguiu-se a pintura. Afinal, não ficou todo cor-de-rosa. Só lhe pintaram o pé. O resto ficou verde como todos os outros seus irmãos. Aliás, se não fosse o banco do jardim a dizer-lho, ele lá de cima mal conseguia ver por causa da ramagem das árvores.
Os homens foram embora e aguardava-lhes uma noite calma. Não havia sessão de teatro.
Ao anoitecer, uma senhora andava a passear o seu caniche pelo jardim. O animal mal viu o poste, acabadinho de pintar de cor-de-rosa, não hesitou em cheirar e bem, levantar a pata e fazer do pé do poste sua casa de banho pública:
-Ei, ei, o que estás a fazer? Estás-me a estragar a pintura! Já só tenho o pé pintado e agora vens tu!
O animal nem olhou para trás e continuou o seu passeio.
Meia hora depois, um senhor que passava pela Avenida, dado que não se podia sentar no banco do jardim porque tinha uma fita à volta, encostou-se ao poste a fumar.
-Ai, ai, a minha pintura!
O humano não ouvia, nem percebia e continuou encostado. Parecia à espera de alguém.
-Estou cansado! Já me custa suportar a lâmpada! Banco! Banco! Não podes ajudar?
-Não posso fazer nada! Os homens puseram esta fita à minha volta mas não puseram a volta do teu pé.
Passado algum tempo, o homem senta-se e adormece encostado. Ficou ali a noite toda.
No dia seguinte, foi embora assim que uns jovens chegaram para colar um cartaz:
-Banco, banco! Como está a minha pintura. Estou exausto! Não consegui dormir!
- A tua pintura já mal se vê. A poluição e os maus tratos das pessoas já a estragaram. Está quase da cor do resto.
-Então que me serve estar aqui na Avenida e  ter uma cor diferente de todos os outros?
-Amigo,  podes estar pintado por fora de outra cor mas no fundo, continuas a ser um poste e os postes sofrem todos o mesmo!

2 comments:

Phil said...

Gostei... Somos o que somos ou o que fazem de nós :)

Novas Tendências em breve :)

Sofá Amarelo said...

Acho que somos mais o que os outros querem fazer de nós...