Dec 8, 2015

10.º aniversário, uma prenda para si!

O Diário resolveu comemorar o seu 10.º aniversário revisitando todos os contos de Natal que ao longo desta década criou. Podem lê-los em etiqueta própria.
Obrigada a todos os que, entre presenças e ausências conseguiram acompanhar-me nesta já longa aventura.

Fatias de amor dourado

Há muito, muito tempo numa terra distante vivia um Rei com uma filha muito bela, tão bela que não havia mais nenhuma mulher com tamanha beleza nas redondezas.
O Rei não tinha mais família senão a sua bela filha e protegia-a com todas as suas forças impedindo-a de sair do Palácio.
A Princesa cresceu rodeada pelos criados e criadas do reino não conhecendo mais ninguém. A única pessoa estranha ao Palácio autorizada a entrar era o padeiro pois a cozinheira real não era dotada para fazer pão e bolos e a princesa adorava pão.
Todos conheciam o Sr. António, o padeiro, que de madrugada chegava na sua carroça com preciosos manjares quentinhos do seu forno a lenha.
Certo dia de Inverno,l o Sr. António adoeceu e a entrega diária ficou comprometida. Não teve solução senão enviar o seu filho mais novo, aprendiz de padeiro, entregar a sua deliciosa encomenda.
-Miguel,  vai com cuidado e entrega esta carta ao guarda! Não dirijas palavra a ninguém, ouviste?
O Rei é a nossa principal fonte de sustento.
O seu filho mais novo assim fez. Nessa noite, acordou cedo para fazer os pães e bolos mais cobiçados por sua majestade e partiu em direção ao Palácio.
Na entrada entregou a carta ao guarda:
-Segue em frente até a porta vermelha, a da cozinha!
O jovem estava muito nervoso e nem decorou a cor da porta entrando pela primeira que encontrou, uma castanha. Só queria era entregar o pão e sair dali.
Contudo, assim que bateu à porta ela abriu-se e lá dentro, sentada numa mesa a bordar encontrava-se a donzela mais bela que já alguma vez sonhou. Ficou tão impressionado que não conseguiu explicar quem era.
-Quem és tu? -perguntou a donzela.
-Ahh..ahhh...
-És mudo?
-Nã....o.
-O que fazes aqui?
-Venho entregar o pão minha senhora.
-Ah..o Sr. António?
-Está doente! Eu sou o Miguel, seu filho.
-Tens ai pão quente?
-Claro.
Abriu o seu saco e tirou de lá o seu melhor pão. Estava quente ainda fumegava. A donzela pegou nele e arrancou um pedaço.
-És mesmo o filho do Sr. António. Era capaz de conhecer o seu pão em qualquer lado. Amanhã trazes-me um pão mais delicioso que este? Agora vai e bate à porta vermelha, não te esqueças!
O rapaz corado, baixou a cabeça e saiu.
Nessa noite, o jovem padeiro quase não dormiu e acordou cedinho para ir para o forno. Seu pai, até fiou surpreendido.
-Maria, parece que o nosso filho vai seguir as minhas pegadas- disse para sua esposa.
Miguel cozinhou nessa noite um pão nunca antes visto.
Entrou no Palácio e foi direto à porta castanha, novamente. Lá dentro, encontrou a bela donzela. Abriu o seu saco e deu-lhe o seu pão.
-Ah, o pão tem pintas pretas! Está cheio de carvão?
-Não minha senhora. São sementes de papoila. A mais bela flor do prado.
A princesa partiu um bocado, meio desconfiada e comeu.
-Humm...é...
-Diga, diga!
-Humm...é delicioso! Obrigada.
-Por favor não agradeça. Amanhã prometo que trago algo novo.
Assim fez, durante vários dias e semanas. O jovem padeiro trouxe diferentes pães, com várias farinhas, várias sementes, trazendo à princesa um pedaço do mundo exterior ao Palácio.
Contudo, certo dia o jovem foi apanhado e levado ao Rei para castigo.
Perante sua Majestade, que estava bastante furioso:
-Tu não tens noção do que fizeste! Violaste a principal regra deste reino!
O Rei tinha fama de ser bastante justo nas suas leis e regras, apenas nesta ele era totalmente implacável e para esta violação a pena era a sentença de morte.
-Tens direito contudo a uma última palavra!
-Meu senhor, posso pedir a mão de sua filha em casamento?
Todos os elementos da corte ficaram surpresos com tamanha audácia.
-Quem és tu e o que tens para oferecer à minha bela filha?
-Meu senhor, se me deixar passar uma noite junto ao meu forno trago-lhe o pão mais valioso que alguma vez viu.
-Ah..Ah!- sorriu o Rei que era bem disposto.
-A sério! Sua Majestade!
-Guardas! Levem-no para a casa do padeiro mas fiquem de guarda toda a noite. Quem o deixar fugir será condenado a morte como ele.
Miguel assim foi. Seu pai estava preocupadíssimo e seu mãe apenas chorava e dizia: o nosso filho não vai passar mais nenhum Natal conosco, António.
O jovem passou a noite em claro e de madrugada lá foi ele perante o Rei.
-Vamos lá despachar isto que eu quero dar inicio as festividades de Natal do Reino. Mostra lá o pão mais valioso. Ah...ah...
Miguel destapou a sua cesta de bolos e lá de dentro saiu um cheiro incrível, doce e ao mesmo tempo quente.
Pegou numa travessa e de repente todos ficaram boquiabertos. Nunca tinham visto fatias de pão dourado, tão dourado como o oiro mais belo e precioso.
O Rei pegou numa fatia e provou de olhos fechados. Entretanto, a corte ficou em suspense.
Depois, sua majestade abriu os olhos e virou-se para a sua filha:
-Meu bem mais precioso, creio que chegou a hora de te entregar. Virou-se para o jovem padeiro e disse:
-Concedo a mão da minha filha a o homem que transformou pão em ouro. Que se iniciem as festividades de Natal e que se prepare a mais bela festa de casamento mas com uma condição!
O jovem tremeu.
-Miguel, posso tratar-te por Miguel, não posso? Já que irás ser meu futuro genro, fazes mais destas fatias douradas, não fazes?
E assim viveram felizes para sempre.



Nov 14, 2015

Amizade asna

Um burro ia sempre para junto do muro sempre que um velho passava. O idoso nunca lhe ligava nenhuma.
O asno estava preso ao pedaço de terra rodeado por um muro de pedras e o velhote passava ali porque tinha que passar que ir à Horta. Ia lá todos os dias nem que fosse juntar umas folhas caídas na noite anterior. Era uma forma de ocupar os seus dias.
Certo dia o velho passou lá e o burrico não apareceu. Estava deitado à sombra cabisbaixo. O idoso achou estranho e aproximou—se do muro. O burro olhou para ele mas não se mexeu.
O velhote lá foi à horta e regressou.Passou pelo muro e o burrico não se tinha mexido. Intrigado, deu por si a perguntar:
—Estás doente?
—Não. Respondeu o asno.
—Então porque não me vieste ver?
—Oh, porque todos estes anos te fui visitar e tu nunca percebeste o que eu queria.
— Não vinhas ao muro para me ver?
—Sim e tu algum dia o fizeste?
O idoso percebeu que por mais inocente uma amizade seja ela não é burra o suficiente para apenas viver sozinha.

Sep 7, 2015

O desejo de não estar

O que é que nos faz querer estar onde não estamos?
A desejo do estar ou o desejo do não estar?
Eu acho que é por não conseguirmos ver realmente onde estamos nem onde não estamos que nos faz querer mais. Não porque esse mais seja melhor mas, visto daqui parece que sim. É assim, nesta necessidade constante de estar onde não se está que se vive até ao dia onde se desejava estar onde se esteve porque, nessa altura, o que se vê daí é um fim que nunca se pensou existir.

Aug 26, 2015

Caos

Quando ninguém percebe,
Quando toda a gente teme,
A confusão é lançada,
E a calma só regressa à pancada.

Todos falam o que não viram,
O que julgam que ouviram,
Inventam o que queriam desejar,
Incendeiam quem está aonde ambicionam estar.

É assim a luta da selva da história,
De um Reino sem líder,
É assim o estado,
De um mandato pregado na discórdia.

O que fazer neste caos?
Aonde cada suspiro é morto,
Por cada nervo,
Aonde cada sorriso é arrancado,
Por um segredo obscuro,
Que todos adivinham mas ninguém sabe.

Ai nação pedante,
Que os teus filhos convidas a sair,
E os estrangeiros  com ouro conquistas!

Nação que só olhas para o que tens,
Quando para os outros é moda.
Não por teres orgulho em ti mesma,
Mas sim porque alguém olha para ti.

Nunca deixei de acreditar,
Mas custa, custa tanto,
Que este esforço imenso,
De lutar pelo que defendo é esmagado com desânimo.

Aí nação valente,
Que unida teve o mundo,
E que separada nem a si própria consegue manter.

Vou descansar para ganhar força,
Não força para em ti acreditar,
Mas sim coragem,
Para enfrentar caminho que no caos me deixaste.

Jul 21, 2015

Tó Tuga, preciosidade portuguesa não é barata

Tó Tuga encontra o seu amigo Miguel Roscas à saída de um estabelecimento chinês com um papagaio de papel já envelhecido na mão:
—O que fazes aqui? Andas às pechinchas? Olha que isso parece velho! Foste enganado!
—Oh, eu fui vender e não comprar.
—Ein! Eles aqui compram velharias?
—Até compram. Eu é que não vendo.
—Então? Não pediste um preço em conta? Isso já não presta!
—Também tu? Isto é um papagaio português antigo, uma antiguidade e não espanhol. Lá porque eles compram os aeroportos deles a preço de uva mijona nao quer dizer que façamos o mesmo!

Notícia Atugada: (http://sol.pt/Mobile/Noticia/403189)

Jul 19, 2015

Grãos de tempo

Um menino foi à praia com o avô. A viagem era um pouco longa, então, pela hora do calor ficavam à sombra do chapéu, à espera de nova oportunidade de brincadeira ao Sol.
Passados uns minutos de sombra, diz o menino:
— Avô, já posso ir à água?
—Ainda não! Só passou meia hora. Tenta descansar.
Um tempo depois volta a perguntar:
—Avô, já se pode?
—Não, ainda não. Tens fome?
—Não! Avô?
—Sim?
—Porque o tempo demora tanto tempo a passar?
—Olha! Chega aqui ao pé de mim!
O menino mudou de toalha e sentou—se junto ao avô.
— Agora junta as tuas mãos como eu em forma de concha!
O menino assim fez, muito curioso.
—Assim que eu disser enchemos—as de areia!
—Está bem!
—Agora!
Os dois encheram as mãos de areia.
—Oh! O avô ganha. Tem as mãos maiores!
Contudo, por entre os dedos já tortos da idade, a areia do avô foi caindo até que rapidamente as suas mãos ficaram vazias. O menino ao ver, disse:
—Deixaste cair avô?
—Pois meu menino. Sabes o tempo é como os grãos de areia. Apanha—se rápido mas também se perde. E olha! O avô foi depressa.
O menino olha para as suas mãos, com um pequeno monte de areia e coloca—as em cima das do avô e diz:
—Avô, eu dou—te um bocado do meu tempo!
O idoso comovido abraçou o neto com toda a força.

Jul 15, 2015

Tó Tuga, por acaso como iogurte grego

Tó Tuga estava à janela a comer um iogurte grego quando passa o seu primo Zé Torresmos que pergunta espantado:
— Estás doente primo? — Pois jamais tinha visto tal coisa. À tarde era hora de bejeca, vá no inverno, às vezes uma aguardente para aquecer.
—Nada disso!
—Então estás a comer iogurte porquê? Isso é comida de gaija.
— Estou a ajudar a Europa.
—  Ein? Não entendi?
—  Estes são gregos!
— E daí? Apanhaste Sol na boneca, foi?
—  Não percebes? Se eu comer os gregos ajudo a economia?
— Ah! Eles vendem mais...Tu és um génio.
— Por acaso foi ideia minha!

Notícia Atugada(
http://observador.pt/2015/07/13/por-acaso-foi-uma-ideia-minha-que-desbloqueou-o-acordo/)

Jul 10, 2015

Pedaço de mar

O caracol agita,
A lapa agarra,
O camarão saltita,
A onda refresca.

A estrela do mar esconde,
O que o caranguejo protege,
A alga flutua o que a poça nua,
A vida veste.

O camarão explora,
Os cantos do que de novo surge,
Na agitação calma,
Que a onda embala.

Oh, lapa, que daí não foges,
Só para ali vais, ali do outro lado,
Lado deste pedaço,
De mar amado.

Caracol atleta,
Que depressa acha,
Que dali têm,
Tudo o que convém.

Aí estrela guia,
Aqui me trouxeste,
A este mar gerado,
Neste pedaço de rochas criado.

May 3, 2015

Oh Freguês vai uma azeitona! Oh Sócio e um tremoço?

Numa praça de Lisboa, numa banca estava um tremoço e uma azeitona, cada um no seu recipiente. De repente, aproxima-se um cliente e a azeitona aproveita logo:
-Oh Freguês! Não vai querer uma saborosa e moreninha!
Ao seu lado, o tremoço, não querendo perder a oportunidade:
-Qual moreninha qual quê? Aqui o sócio vai querer é uns belos tremocinhos para acompanhar uma "bejeca" bem fresquinha e ver o jogo de futebol!
-Freguês, só quero o seu bem! Já viu o que ganhava ao chegar a casa com umas moreninhas para acompanhar um bacalhau a Braz ou a Gomes Sá! Sua esposa ia adorar!
-Sócio! Sócio!
 Se do Benfica for, tremoço vai querer, 
 Se do Porto torcer, tremoço vai morder,
 Se do Sporting sofrer, pelo tremoço vai tremer!
A luta de pregões estava acesa. O cliente tira o porta moedas e diz:
-Este domingo há jogo! Vou levar....
De repente aparece a sua esposa, que rapidamente o interrompe:
-Oh, querido! O que faria sem ti! Acabei agora mesmo de comprar uns ovos para o bacalhau a Braz!
A azeitona, toda vaidosa! Sorri!
-Bem, vou levar um saquinho de cada! As azeitonas e os tremoços!
Assim, os dois foram parar ao saco das compras da praça, bem ao lado um do outro, junto a uma alface viçosa, que as saúda:
-Bem vindas, amigas,, às ultimas horas da vossa vida! Ouvi o quanto apregoaram por vencer! Parabéns ganharam as duas!
A azeitona olhou para o tremoço e ali ficaram, calados à espera do seu troféu!
Por vezes, ficamos tão preocupados em ultrapassar o próximo e esquecemo-nos daquilo o que realmente é melhor para nós.

Mar 1, 2015

O orfanato das maças

-Mana, lá vem uma morena agora! Parece simpática!....Apanhou-me, yuppie! Oh! Não foi desta! Olhou para as minhas manchas! Deve ter sido! Se tivesse a pele lisa e sem estas manchas castanhas levar-me-ia!
-Olha, agora vem uma mãe de família! Que linda pequena filha ela tem! Dava uma boa companhia de brincadeira! Oh! Não me levou porque sou gorda demais! Se fosse maneirinha como aquelas ali do lado!
-É agora mana! Vem lá uma Hippie gorducha! Elas de certeza que não se importam com os defeitos dos outros e como é mais cheinha vai-me levar de certeza! Oh! Não me quer porque não pareço natural!
-Mana, passou mais um dia e nós aqui ficámos! Os dias passam, pegam em nós, acariciam-nos e até chegam-nos  a cheirar para confimar se somos perfumadas mas nunca nos levam. Se elas soubessem o que custa ficar aqui, ser rejeitada! Não nos peguem! Ignorem-nos! Não precisam de nos criar expectativas e depois voltarem-nos a por no mesmo sitio. Não sou perfeita! Tenho manchas e sou rechonchuda mas mereço respeito! Pensem nisso! Cada vez que nos pegam e nos atiram novamente para aqui ficamos com mais uma mágoa, mais um pedaço de nós que fica pisado pela desilusão!
A mana, olha para ela e responde!

-Oh! Não ligues! Nós maças, se não formos escolhidas agora vamos servir para fazer doce!