Nov 26, 2014

A árvore de Natal da Branca de Neve

Na casa dos 7 anões estava uma agitação enorme para a preparação da ceia de Natal. Todos montavam o pinheiro mas as decorações eram sempre diferentes todos os anos. Havia uma tradição entre os irmãos em que cada um fazia um elemento decorativo para a árvore sempre com coisas da floresta. Ninguém ganhava a ninguém mas todos ficavam felizes por ter sempre a árvore mais bonita cada ano que passava.
Este ano não era exceção. A recém chegada Branca de Neve tinha-se oferecido para fazer os doces de Natal e tinham uma motivação extra.
Feliz tinha sugerido aos irmãos decorarem a árvore com branco como a pele da sua mais recente amiga e vermelho como os seus lábios.
Assim sendo, os irmãos foram à floresta. Uns recolheram bagas, outros, maçãs vermelhas e até folhas vermelhas.
A tradição era ninguém saber o que o outro traria e ser surpresa na véspera de Natal. A agitação era enorme e finalmente chegou a hora para todos mostrarem o que tinham trazido. Quando abriram as suas sacolas de pano ficaram todos boquiabertos. Ninguém se havia lembrado de trazer algo branco.
-E o branco? – Perguntou Dunga.
-Lembrei-me mas o que havia de trazer? Pedras brancas são pesadas e a neve derrete-se. – Respondeu Feliz.
-Vamos por as decorações, por as luzes e ver como fica! – Sugeriu o Mestre.
-Apaguem as luzes! – Disse o Zangado!
Os irmãos sentaram-se todos a volta da árvore sem saber o que fazer. Era o primeiro ano em que não se tinha cumprido o objetivo. A Branca de Neve estava muito ocupada a fazer doces na cozinha quando de repente ficou sem luz. Ficou assustada. Pensou que fosse a Rainha Má. Agarrou no rolo da massa e dirigiu-se em direção à sala. Estava tudo muito escuro e não reparou aonde pôs os pés. Tropeçou em algo e caiu:
-Ai! – Gritou estatelando-se no chão.
Mestre correu,ligou logo a luz e correu em direção à sua amiga.
-Vossa majestade está bem?
-Sim.
-Mestre, mestre, olha a árvore! Está branca como a neve! – Exclamaram todos em uníssono.

Branca de Neve havia tropeçado num saco de farinha e,seus grãos espalharam-se e caíram em cima da árvore. Algo que jamais os anões tinham pensado. Ficaram todos muito felizes pois mais uma vez, todos juntos conseguiram ter uma árvore mais bela de sempre.

Nov 25, 2014

O Natal do capuchinho vermelho

O capuchinho vermelho acordou num dia frio de inverno, véspera do dia de Natal. Todos os dias ia visitar a sua avó e levava-lhe comida. A avó neste Natal ,não passava com a família e logo não estava com a sua neta. As famílias não se davam bem desde o falecimento do avô nesse ano e a avó preferiu ficar, sozinha, na sua casa na floresta. As partilhas da herança afastaram as pessoas. Contudo, o capuchinho fez questão de a ir visitar, fazendo ela própria as bolachas de natal.
Vestiu o seu casaco vermelho e lá foi. Estava muito vento e frio mas não desistiu.
Quando chegou à porta de sua avó viu que a sua casa estava coberta de neve mas não tinha nada a indicar que era Natal.
-Avó, não colocaste decorações de Natal este ano?
-Não me apetece, minha querida!
-Gostava de estar contigo esta noite!
-Não fiques triste!
-Costumavas sempre chamar-me para ver o pinheiro do jardim que tu e o avô decoravam.
-Sim! Mas uma árvore deve ser decorada com amor e partilha e este ano não tenho ninguém. Melhores anos virão.
-Está bem! Fiz-te as bolachas de castanha que tanto gostas!
-Obrigada. Vou guarda-las para depois da ceia. Agora vai-te embora que está a ficar muito frio e os teus pais vão ficar preocupados.
O capuchinho vermelho vestiu novamente o seu casaco e saiu.
Já cá fora, o vento soprava fortemente. Estava muito triste e as lágrimas começaram a cair pelos seus olhos aquecendo a sua face. Virou-se para trás e reparou que o pinheiro que seus avós costumavam decorar ainda lá estava, cheio de neve. Retirou o seu casaco vermelho e colocou-o em cima da árvore.
Só que estava muito mas muito frio e seu corpo foi cedendo ao gelo e caiu no chão perto do pinheiro.
Seus pais estavam preocupados e resolveram ir à sua procura. Quando chegaram a casa da avó encontram-na caída no chão.
-Minha filha, que fazes aqui sem casaco?
Ela tremia de frio mas ainda conseguiu falar:
-Partilho a decoração da árvore de Natal com a avó!
Os olhos de seus pais encheram-se de lágrimas.
O barulho fez a avó sair de casa e encontrou a sua família a volta de um pinheiro decorado com um casaco vermelho cor de sangue.
-O que se passa?
-Avó! Gostas da nossa árvore?- Perguntou o capuchinho.
-Entrem em casa e venham aquecer-se por favor.

Entretanto caiu um nevão que os obrigou a ficarem juntos naquela noite. Não houve prendas, não houve jantar avantajado mas apenas uma sopa e as bolachas de castanhas do capuchinho. Aqueles momentos fizeram recordar a todos que, há coisas mais importantes que os bens e herança que os fizeram separar. Tiveram o mais rico e feliz Natal de sempre.

Nov 12, 2014

Diálogo de uma castanha com seu pai, castanheiro

-Pai, porque é que temos uma casca com espinhos?
-Para te proteger no início de vida!
-Pai, porque é que temos uma segunda casca tão resistente?
-Para te apoiar no salto para a vida!
-Pai, porque é que temos uma terceira casca tão amargosa!
-Para te defender da mágoa da vida!
-Pai, porque é que somos tão duras?
-Para que te provar que, mesmo depois de tanta protecção terás que contar com a tua própria resistência.

Participação Fábrica das Letras

Oct 29, 2014

O limbo da abóbora

Uma abóbora vivia num muro de um quintal. Nasceu ali e ali tinha crescido. O muro fazia fronteira entre dois vizinhos que não se falavam. Tinham discutido há uns anos atrás exactamente por causa desse mesmo muro.
A abóbora coitada estava na mesma situação. O seu pé era de um dos vizinhos mas o facto de ter crescido numa fronteira fazia com que, a sua propriedade fosse motivo de atrito. Assim e porque a sua existência não era assim tão importante para que ambos sequer se dignassem a dividi-la a abóbora lá ficou.
Suas irmãs que tinham crescido no chão eram cuidadas e mimadas. Ela não. Vivia num limbo. Apenas alguns pardais se serviam do seu corpo para ter uma visão mais elevada sobre as redondezas mas era apenas por alguns momentos, pois assim que avistavam algum insecto que lhes cobiçasse o estômago voavam e deixavam-na mais uma vez sozinha.
O tempo foi passando e as abóboras acabaram todas por ser colhidas pelo dono e ai sim ficou ainda mais sozinha.
O inverno aproximava-se e ela tinha a perfeita consciência que o seu tempo estava prestes a terminar. Sendo um ser vivo preocupava-se com a sua descendência e até ai ela estava triste porque as suas sementes jamais iriam germinar num muro de pedra.
Certo dia, quando um pardal poisou no seu topo, decidiu pedir-lhe:
-Fazes-me um favor!
O pardal, curioso por ouvir pela primeira vez a abóbora respondeu:
-Sim! Diz!
-Dás-me uma picada e levas umas das minhas sementes contigo!
-Estás doida! Se eu fizer isso vais morrer dias depois!
-Eu sei!
-Então, porque queres fazer isso?
-Porque se não o não fizer as minhas sementes vão apodrecer aqui comigo neste muro infértil, por todos, desejado e, por todos, abandonado.
-Hum. Tens a certeza?
-Tenho! Prefiro viver menos dias do que viver mais horas e morrer com as sementes comigo.
O pardal assim fez. Bicou a casca da abóbora com toda a sua força durante vários minutos e finalmente conseguiu escavar um buraco suficiente para retirar uma semente. Agarrou-a com o bico e voou sem poder dizer mais nada.
Nessa noite choveu imenso e abóbora não sobreviveu à humidade dentro dela. No dia seguinte entregou-se ao apodrecimento. Ao final da tarde o pardal regressou e pousou na sua casca já encarquilhada e disse:
-Enterrei a tua semente perto de um riacho num local muito bonito. Ela vai ter água e vai de certeza crescer saudável.
A abóbora já sem forças respondeu:
-Obrigada amigo!
O pardal muito comovido pediu desculpa.
-Desculpa porquê?
-Matei-te!

-Não amigo! Tu deste-me mais do que alguém alguma vez me deu: razão da minha existência!

Oct 14, 2014

Erro de sintaxe

Um trabalhador de escritório muito atarefado, com um prazo para cumprir, escrevia com intensidade no teclado do computador de seu trabalho o dia todo. Isolado da realidade que o circundava, não comia, não falava nem ia à casa de banho. O teclado e o monitor eram as duas únicas coisas que lhe interessavam naquele momento.
As horas passavam, a altura de jantar já havia passado e o cansaço começava a pesar nos seus olhos. A certa altura o trabalhador ouve uma voz:
-Sinto a tua falta!
O homem tão atarefado que pensava que seria alguém ainda no escritório a falar ao telefone e nem perdeu muito tempo a raciocinar sobre o assunto.
-Ei, pst! Eu estou aqui!
O trabalhador cansado, levanta os olhos e repara que à sua volta, no escritório, estavam todas as luzes apagadas e não havia mais ninguém.
-Esqueceste-te de mim!
O homem pegou nos telemóveis, não vá algum estar ligado por algum motivo e nada. Tudo parado. O tempo corria e ele regressou ao teclado.
-Ei, aqui em baixo do lado direito!
Ai sim, o trabalhador ficou preocupado e de repente no canto inferior direito começou a ver algo que jamais pensou ver em toda a sua vida. O seu rato tinha olhos e boca.
-Estou a endoidecer! Este trabalho está a dar cabo de mim!
Olha para o relógio e eram 23h30m. Tinha até a meia-noite para enviar ao cliente o trabalho sem falta. Tentou assim ignorar o que viu pois o seu stress era superior.
Faltava apenas uma última revisão. Não vá ter feito alguma asneira e ao reler o seu trabalho, o cursor do seu computador começou a mexer sozinho, sublinhando algumas palavras repetidamente:
-Olha para mim!
O homem resistiu e tentou abstrair-se para ler o seu texto com o resto das capacidades que ainda possuía e terminou.
Ao tentar agarrar no rato para gravar e enviar não conseguiu. O rato não se mexia. Parecia que tinha cola e estava preso ao tapete.
Eram 23h55 e o trabalhador já suava. Tirou a mão do rato e reparou que o mesmo tinha os olhos encerrados e a boca fechada, como se estivesse chateado. Num ato de loucura, vira-se para o seu pequeno equipamento e diz:
-Desculpa mas eu tenho mesmo que enviar isto, senão sou despedido!
-O que é ser despedido?- Perguntou o rato.
-Olha é ir para casa!
-O que é casa?
-A casa é o local aonde vives com a tua família.
-O que é família?
-São as pessoas que amas.
-O que é amar?
-Olha é gostar tanto de alguém que não podes viver sem ela ou ele.
-Hum!
-Estás vivo?
-Estou.
-Não amas alguém.
-Sim amo a minha família, claro.
No monitor apareceu um erro que dizia: Erro de sintaxe, não é possível gravar.
O trabalhador chorou de desespero. Cansado sem saber como argumentar o que era óbvio, o que para uma máquina era simples mas para um humano era complicado. Eram 23h58m e agarrou as mãos à cabeça e gritou:
-Já fui!
Sem querer acreditar no seu monitor aparece a o seguinte aviso: O seu ficheiro encontra-se a ser gravado. Agarrou no rato, carregou no “send” e o ficheiro foi entregue às 23h59 no destino.
Respirando de alívio. Desligou tudo e correu em direção a casa. Seus filhos e sua mulher já dormiam. No dia seguinte acordou, agarrou sua esposa e filhos e disse:

-Desculpem o atraso de ontem. Hoje vou tirar a tarde e vou buscar a crianças ao colégio para irmos ao parque brincar e depois vou-te buscar ao trabalho para aproveitarmos o resto do dia.

Oct 12, 2014

Quero não ser o que não vivi

Quero nascer aonde não nasci,
Quero viver aonde não vivi,
Quero ter os pais que não tive,
Quero ter os amigos que nunca consegui.

Quero achar o amor para que nasci,
Quero viver a paixão  para que vivi,
Quero não ter os bens que tive,
Quero não ter os filhos que  consegui.

Quero ter a casa aonde não nasci,
Quero viver a vida que não vivi,
Quero ter a riqueza que não tive,
Quero ter os amores que nunca consegui.

Quero não ser o que  sou,
Quero não viver o que vivi,
Quero não ter o que tive,

Quero não amar o que nunca consegui.

Oct 7, 2014

Lisboa, mulher sempre

Lisboa, idosa moderna em xaile de cantora de fado,
Moça regatada de socas tapadas,
Mulher experiente de corpo de jovem inocente,
Idosa cuidada de espirito gaiteiro.

Lisboa, idosa maquilhada, de manjerico perfumada,
Moça mimada de avental alado,
Mulher tímida em braços de Tejo ardente,

Idosa, criança, jovem amada.

Sep 30, 2014

Tó Tuga, o Grande

Tó Tuga acorda no meio de uma soneca no sofá e afirma:
-Maria! Tive um sonho lindo!
-Sonhaste que ganhavas o Euromilhões?
-Não.
-Sonhaste com a Brigitte Bardot?
-Eu disse que sonhei hoje e não há 50 anos!
-Ai, então?
-Sonhei com o Gandhi!
-A sério? O que ele fez e o que ele te disse?
-Ele estava numa herdade no Alentejo e eu estava à caça aos coelhos. De repente, toca-me no ombro e diz:
-“A grandeza de uma nação pode ser julgada como os animais são tratados”.
-Ai homem! O que respondeste?
-Que ficava para um futuro próximo!
-Então porquê?

-Ora, porque os prazos dos judiciais foram adiados.

Sep 13, 2014

Cegueira do relógio

Eu podia olhar para o passado mas já não o vejo, podia visualizar o futuro mas ainda não aparece, podia ver o presente mas quando pisco os olhos ele já fugiu.

Sep 12, 2014

Tó Tuga, profissional do desemprego

Tó Tuga estava sentado no banco do jardim vestido de fato e gravata quando passa seu primo Zé Torresmos que fica muito intrigado pelo traje, aquela hora, a meio da tarde, durante a semana:
-Ei lá! Vieste de um casamento? Agora está na moda serem a durante a semana. Dizem que fica mais barato.
-Nope!
-Oh! Não me digas que morreu alguém e não me avisaram!
-Também não!
-Então? Foste a uma entrevista de emprego?
-“Nicles!”.
-Ai, então? Resolveste arejar o fato, foi? Oh, pá! Dizias à tua Maria para estender cá fora no varal e não precisavas de vestir. Ainda por cima, hoje está cá uma humidade que se uma “garina” me agarrasse eu escorregava que nem uma enguia.
-Também não! Arranjei um emprego!
-Ein? Então eu vi-te à hora de almoço de chinelos e calções na Tasca do Chinfrim a beber café.
-Estava a na pausa do almoço, agora estou ao serviço!
-Estás a gozar comigo? Estás ao serviço como? Estás com essa “bunda” sentada no banco do jardim!

-Primo, agora eu sou Profissional do Desemprego!