Mar 3, 2012

Leva-me

Esquecida. Largada no braços do tempo. Perdida nas memórias de viagens, imagens e aventuras. Agora possui  apenas um momento, o daquele quarto.
Ali estava, de olhar perdido no espelho em frente a si que reflectia cada pormenor daquele espaço.
Tinha saudades da alegria em guardar uma memória, do entusiasmo em gravar um acontecimento, da felicidade em descobrir uma visão nova que todos viam mas ninguém reparava.
Já tinha guardado cada pedaço, cada objecto e ângulo invertido daquele reflexo. Não havia mais nada de novo.
-Porque estou aqui? –Questionava-se.
Parecia chamar, quem um dia a considerou a sua amiga inseparável. Alguém com quem viu o mundo de uma forma diferente, não como um todo imperceptível ao tempo mas sim como pedaços de beleza inesgotável. Alguém com quem conseguiu parar o relógio, esquecer a vida e renascer em cada visão.
Companheiras, amigas, confidentes.
Agora, aqui estava.
-Pega-me, leva-me contigo para esse teu mundo?
Tentava apelar à sua velha amiga, cada vez que ela ali passava.
O tempo corria e não havia resposta. Aliás o relógio ao seu lado, mudava os números a uma velocidade nunca vista.
-Gostava de poder chorar!- Exclamou um dia, como que uma criança pedindo um doce ou um adulto querendo largar as suas mágoas.
Não podia. O mundo, que conseguia ver melhor que ninguém, a impedia pois ela era apenas uma máquina. Um equipamento que guarda pedaços de beleza mas sem direito à beleza de sentir.

PS.: Este texto é dedicado à minha velha amiga máquina, que finalmente está arranjada.

Participação no tema de Março da Fábrica de Letras: Fotografia


Mar 2, 2012

Os Óscares da Pipoca Saltitante

Sou uma pipoca saltitante,
Doce e muito quente.
Sou uma pipoca cineasta,
Dos filmes amante e do cinema entusiasta.
Sou uma pipoca crocante,
Estaladiça e errante.
-Sra. Pipoca, quem acha que vai ganhar o Óscar esta noite?
-Ora, vamos rever os nomeados:
Categoria de Tragédia e Drama: Grekanic, a história de um povo que vive num monte, o Monte do Olimpo, confortavelmente e à custa do Deus Poros, da riqueza. Esta divindade apaixonou-se pela Deusa Pênia, da pobreza, e dessa relação nascera um filho, o Amor. As comemorações do nascimento duraram anos. Durante esse tempo, o povo do Monte de Olimpo viveu alegremente porque seu Deus repartia tudo com eles, o que tinha e o que não tinha. Até que, certo dia, o filho foi morto e ai começou a tragédia. O povo teve que se associar a outros povos e não correu bem.
Categoria de Comédia: Tuga Cream Pie, conta as aventuras de uns amigos que vivem num país de crise vitalícia que ninguém conhece e que se torna famoso ao mundo através da tentativa de internacionalização de um bolo. É engraçada a sabotagem do croissant e tentativa de venda, durante uma reunião, a um povo de obesos, de um Tuga Cream Pie com smarties tirados de uma máquina, numa pausa para uma ida à casa de banho.
Categoria de Ação/Animação: Merkelix, a invasão germânica, relata a supremacia de uma Líder Loura, que consegue deixar a seus pés outros líderes sem ser pela sua beleza nem pelos seus encantos. Reza a lenda que ela, quando pequena, caiu num pote de uma poção mágica que lhe permite encantar as pessoas levando-as a fazer o que ela pretende. A animação está muito bem conseguida e gostei dos efeitos a 3D. Ficará para sempre célebre a altura em que ela atira moedas para cima da cabeça de todos os líderes ajoelhados a seus pés. Parece mesmo que chegam até nós. Quando assisti à estreia, vi muitas pessoas da plateia a levantar as mãos no ar para as apanhar mas afinal era tudo tecnologia 3D.
-Então, e qual acha que tem mais hipóteses?
-Olhe, estou indecisa. Acho que pelo enredo, daria a Grekanic o óscar de melhor filme e a Merkelix o óscar de melhor atriz.
-E o Tuga Cream Pie?
-Ah esse? Serve para divertimento da assistência…Eu se calhar levava para lá um bocado da Tragédia do Grekanic e submeteria o povo que ninguém conhece ao encantamento da Merkelix e o filme melhorava bastante.

Feb 29, 2012

Parque de campismo: Portugal

Num parque de campismo à beira mar, estava uma enorme mesa de piquenique. Espalhadas pela superfície encontravam-se imensas panelas encostadas umas às outras. Algumas até, dentro de maiores. Por entre os tachos, algumas chaleiras para aquecer água. Estes últimos utensílios transbordavam de vapor quente. Eram constantemente cheias. As suas tampas quase que saltavam de tanto uso.
No céu do parque de campismo passou uma nave espacial com um ET que, reparou na mesa à beira mar.
O ser alienígena, obrigado a relatar, num diário de bordo, acerca da sua missão de descoberta da Terra, relata:
-Encontrei um pedaço de terra, à beira-mar, extremamente invulgar. Os habitantes são panelas e chaleiras. Os primeiros são os líderes da civilização pois passam o tempo todo parados a pensar sobre as mais altas questões. Pelo menos foi o que consegui observar, pois durante o meu voo nenhuma delas se mexeu de sítio. Reparei que efetuam Conselhos pois juntam-se nalguns locais. Deve ser para fazer brainstormings, digo eu. A classe inferior são as chaleiras. Estão sempre a ser enchidas para aquecer. A relação entre elas é muito tensa devido ao cansaço.
Da minha experiência de análise civilizacional existem demasiados líderes para a quantidade de classe laboral. E esta última está quase a explodir de tanto trabalho. A solução para este povo passará por pôr algumas panelas a aquecer, caso contrário, não haverá mais água quente para garantir a sobrevivência.

Feb 28, 2012

Vozes fechadas á chave

-Não feches a porta com tanta força!
-Esta noite ficou aberta! Olha que, qualquer dia assaltam-nos a casa!
Recordava, sentada no sofá, de olhar fixo naquela tábua de madeira que há dias não se abria. Só quando a assistente social vinha visitá-la.
O som da TV ecoava no silêncio mas os seus ouvidos apenas ouviam as memórias de um passado distante. Recordações de agitações de uma família numerosa de três filhos.
As receitas e coscuvilhices transmitidas durante o dia nos canais de sinal aberto de TV cansavam-na. Gostava de sentir o som da companhia mas por vezes voava até à humanidade do passado.
-Ai, vocês parem de correr!
-Não batam com tanta força na porta! Não sou surda!
Era como se os seus filhos voltassem a ser pequenos, a correr e a sorrir pela casa fora. Revia as entradas e saídas. Sentia o Toc Toc de quando regressavam da escola como se fosse nesse momento a sua hora de chegada.
Adormecia, sonhava e acordava num ciclo inconsciente, apenas quebrado pelo genérico da novela das 19h. Era altura de aquecer a sopa do jantar.
Ainda voltava ao sofá, para ver apenas o telejornal. O seu corpo precisava que se deitasse cedo.
Antes de dormir, aproximava-se da tábua velha de madeira que a separava do mundo e acariciava-a com mão. Era como se desejasse boa noite. Um cumprimento que ninguém recebia mas creio que naquele singelo gesto havia um anseio que do outro lado, alguém o recebesse.
Acordava cedo. Gostava de regar as plantas que cuidava com carinho, na marquise.
-Estás cada vez mais bela!
-Gostas muito de ver quem passa! Vou-te virar ao contrário senão ficas torta!
Eram as suas únicas palavras durante dias. Porque falava com as plantas? E porque não? Se as únicas palavras que se ouviam, as da TV, era de alguém para alguém sem ser para ninguém em particular.


Feb 27, 2012

Momento de parvoice, porque não?

Há questões que me coloco acerca dos animais que ainda ninguém me deu resposta:
As preguiças têm as unhas grandes porque tiveram, lá está, preguiça para as cortar ou deixaram crescer para espetarem-nas no tronco das árvores e terem que fazer menos força para se susterem?
As galinhas são mesmo estupidas ou gostam de dar bicadas nas pedras e comer areia?
Os pombos sempre viveram em meios urbanos ou gostam de poluição? É que no campo raramente se veem à solta.
Existe alguma razão para a qual os patos abanarem a cauda enquanto andam ou são apenas vaidosos. É que as estupidas galinhas quando andam não o fazem. Se calhar não foi um bom exemplo comparativo de alguém que dá cabeçadas em pedras. Foi só uma comparação morfológica.

Feb 24, 2012

Bolinhas e Migalhas

O Bolinhas jamais saía de casa sem o seu lenço: branco às bolas vermelhas ao pescoço. Não interessava se estivesse calor ou frio. Era o seu adereço preferido e sem ele sentia-se desamparado.
Não tinha muitos amigos. Era muito gozado na escola por ser um porquinho gorducho. O seu único amigo era o pardal Migalhas. Chamava-se assim porque não conseguia parar de comer migalhas, estivesse aonde estivesse. Mal via uma, tinha que a comer. Era o grupo dos Totós da escola.
Contudo, não viviam tristes. Aliás divertiam-se muito em longas brincadeiras. Fingindo ser cowboys e cavaleiros. Viviam grandes aventuras.
-Bolinhas, já pensaste em mudar de lenço? Trazer outro aos quadrados, por exemplo?
-Já. Os meus pais até já me deram outro no Natal. Cheguei-o a pôr, mas quando olhei ao espelho não me reconheci. Além disso, senti falta do meu velho companheiro. Porque perguntas?
-Os meus pais acham que deveria ir ao médico para deixar de comer migalhas.
-Fazem-te mal?
-Não, não fazem mas vivia mais descansado. Quando vejo uma migalha no chão não resisto e assim podia dizer não.
-Compreendo. Podíamos era fazer um acordo.
-Então? – perguntou o pequeno Migalhas.
-Amanha, não trago o lenço se tu não comeres nenhuma migalha. Nem as dos bolos que os meninos deixam cair.
-Ai, não sei consigo resistir!
-Consegues sim.
-Está bem!
No dia a seguir, combinaram de manhã cedo no parque para brincar antes do almoço. Estavam de férias de Verão e podiam ficar lá o dia todo.
- Não trouxeste o lenço!
-Claro! Agora tens que cumprir a tua parte! Vamos brincar aos piratas e tentar encontrar um tesouro.
-Vamos!
Partiram pelo parque à procura de algo sem saber bem o quê. Talvez achassem uma chave perdida que imaginassem ser de uma arca cheia de ouro, ou um papel envelhecido com uma linguagem estrangeira que fingiriam ser as indicações para o local do tesouro. A imaginação era o seu limite.
Procuraram debaixo dos bancos de jardim, no meio da erva, atras dos arbustos e não encontravam nada até que viram um papagaio de papel colorido preso no meio de uns arbustos, junto a umas pedras, numa ribanceira.
-Eu vou la! Eu vou lá! -Afirmou o Migalhas.
-Sou mais pequeno!
-Está bem mas têm cuidado!
O pequeno pardal, que ainda mal voava. Saltitou para cima de uma pedra e de lá para cima de um arbusto. Só que ao tentar agarrar o papagaio de papel colorido com o bico desequilibrou-se e ficou preso nos arbustos, pendurado no fio do papagaio pela pata.
-Migalhas! Migalhas! Estás bem?
-Sim estou mas receio que o cordel não aguente. Se tivesses algo para me puxar. Não tens ai um cordel do pião?
-Não!
Bolinhas, muito corado, meteu a mão ao bolso e retirou de lá o seu lenço às bolas e atirou uma das pontas ao amigo.
-O teu lenço!
Migalhas agarrou-se ao lenço. Bolinhas, puxou-o com todas as suas forças até rasgar o pano.
-Rasgas-te o teu lenço para me salvar!
-Sim, o que me servia ter o lenço se perdesse com quem brincar.
A partir desse dia, os dois amigos mudaram. Bolinhas variou os seus lenços e o Migalhas. Bem, o Migalhas continuou a comer migalhas mas apenas às vezes.

Feb 23, 2012

Assim se toca...assim se sente

-Sou grande, poderosa e forte- Cantava alegre uma enorme rocha de granito, algures numa montanha Transmontana.
-Chuva, sol e vento, nada me afeta e ninguém me detém!
Ao seu lado, mesmo encostado a si, um grão de areia muito pequeno e quase invisível, ouvia calado.
-Sou tão forte que os insetos se escondem debaixo da mim para se protegerem. Sou tão grande que os pássaros pousam em mim para poderem ver o se passa sua volta. Sou tão resistente que muitas plantas me escolhem como sua casa.
O pequeno grão de areia, suspirava. Sentia um misto de cansaço com inveja. Não tinha nenhuma destas qualidades. Era apenas um entre milhares. Os dias passavam-se e deu por si a perguntar para que servia de facto. Não protegia ninguém.
A única felicidade que tinha eram as festas. Sim as festas de areia. Todos os dias, pela hora do calor. Quando o sol batia nas faces dos pequenos grãos, refletia no ar luzes das mais variadas cores. O calor aquecia os seus corpos, que encostados uns aos outros emitiam sons. Nas tardes mais quentes, pequenas faíscas surgiam no meio das danças.
A rocha, essa continuava, todos os dias, com a sua ladainha e lá do seu alto nunca se apercebeu das festas, nem tinha a audição suficientemente apurada para ouvir as melodias da areia.

Certo dia, no início do Inverno. O céu havia acordado nebulado e coberto de densas e escuras nuvens. Tudo indicava que nesse dia não haveria festa.
Nestas alturas do ano, restava aos pequenos grãos deixar-se ficar e esperar.
Do norte, começou a soprar um vento forte que fazia voar os ramos das plantas secas. A chuva começou a cair. Os pequenos grãos de areia, aproximavam-se uns dos outros para não serem atingidos pelo temporal.
O pequeno grão de areia, debaixo da enorme rocha, tremia de medo.
-Não temam, todos os que em mim se acolhem eu os protejo. Nada me atinge.
O vento soprava cada vez mais intenso. O pequeno grão fechou os olhos para não ver o que se passava. De repente, sentiu uma força invisível agarrar em si. O medo apoderou-se das suas forças e começou a chorar. Fechou os olhos com todas as suas forças. Deixou de sentir os seus amigos grãos e a sua rocha. Foi arrastado pelo ar.
Assim que levantou voo, ouviu um estrondo enorme, seguido de outros. Uns mais fortes, outros menos, até que um estalo se sentiu. Algo se havia partido. O seu medo o impediu de ver. Os olhos continuavam cerrados.
Passadas algumas horas, caiu. O vento parou. Continuou ainda alguns momentos de olhos fechados até que começou a sentir o calor do sol no seu corpo. Lembrou-se das festas de areia, sorriu e decidiu ver o que se passava.
Estava no vale da montanha, junto ao caule de uma árvore. Olhou em volta a procura da sua rocha e nada viu. Apenas umas pequenas pedras estavam junto a si. Pareciam ter sido cortadas recentemente. Nunca tinha visto, nem sabia que as pedras poderiam ser partidas ou cortadas.
O seu novo local parecia muito mais belo e verde. Havia muita vegetação. As aves pousavam em cima dos ramos da árvore e cantavam deliciosamente. Não tinha tanto sol, porque as sombras das folhas o tapavam mas sentia-se bem.
No meio da melodia começou-se a ouvir chorar. O pequeno grão de areia olhou em volta e não sabia de onde vinha tamanho lamento até que, uma voz se começou a fazer sentir:
-Um dia, fomos um todo forte, grande e poderoso. Hoje somos apenas várias partes.
O grão de areia, olhou com mais pormenor para as pequenas rochas.
-Ah, a minha rocha grande! – referiu espantada.
- Sim, quando o vento te fez voar, começamos a baloiçar. Saíste debaixo de nós e ficamos sem suporte. Não conseguimos aguentar e viemos pela montanha abaixo aos saltos. Batemos noutras rochas e partimo-nos.
O sol estava forte e passava através dos ramos. O pequeno corpo do grão de areia tocava nas pedras e emitia uma nova música. As pedras pararam de chorar e sorriram. A festa da areia e das pedras começou.

Feb 20, 2012

Amor de botão

imagem: net
Quando estou contigo, tudo se encaixa,
o mundo é perfeito
parecemos um só,
somos mais fortes,
o que eu tenho de bom,
tu tens de fantástico.
o que eu tenho de mau,
a ti também te falta.
Quando nos afastam, tudo se perde,
prendem-nos longe
por vezes vejo-te,
toco-te por felizes momentos.
São apenas segundos porque juntos não nos querem.
Porquê se o mundo pode ser perfeito?
Que dor viver assim sem jeito.
Não sou forte,
fraca também não serei.
Quem terá assim tanto mal ao peito?
Para deixar-te aqui tão perto,
debaixo do meu olhar,
mas longe do meu estar.

Feb 17, 2012

Um dia foi...

-Agora, para prestar homenagem a este homem, bom pai de família, bom amigo e de um excelente coração vamos fazer um momento de silêncio.
Dos filhos apenas estava um. O mais velho já não visitava a família há muito tempo. Na terra, diziam que tinha causado um grande desgosto a seus pais. Ninguém sabia ao certo, mas o amor pelas bonecas, as cores garridas na roupa e seu jeito afeminado poderiam ser a causa.
O mais novo, filho preferido, esse sim. Agora com todos os bens, sempre teve a vida facilitada com um emprego na empresa de construção do pai.
Por detrás das pessoas, alguém se lembrava das brincadeiras de infância, das saídas para os bailes e da troca de raparigas para namoriscar. Um velho amigo que, por esses velhos tempos resolveu prestar uma última homenagem. Nunca mais se tinham falado desde que o defunto t chegou à administração da empresa que haviam criado, através de uma acusação de furto ao seu sócio.
À frente de todos os presentes estavam os seus amigos mais recentes. Os idosos do lar com quem ele havia passado os últimos anos. Nunca tinha estado doente e ajudava todos os outros a movimentar-se e a fazer os seus afazeres. Era muito querido por todos.
O silêncio terminou e os últimos grãos de terra foram atirados para cima da sua última casa. Naquele momento não houve raivas, rancores nem invejas. O homem, que foi algures anjo, por vezes diabo e nem sempre amigo era agora apenas a sombra das coisas boas que deixara.




Feb 15, 2012

Ão, ão

A maior decepção da vida é ter consciência que se está entre os cães rafeiros que babam ao ver as carnes a passar num churrasco e nunca mas nunca se tem oportunidade de lhes dar uma trinca.

Conversas de chapéu

Já fazia parte de mim. Era como um órgão do meu próprio corpo. Não era um acessório como muitos, mas sim um inseparável amigo. As memórias da sua ausência já se haviam desvanecido. Deveria ser muito pequeno para o poder ter.
Não saía de casa sem ele. Protegia-me do Sol e escondia-me do frio. Sem ele não era eu. Agora fechado em casa, admiro-o pendurado no bengaleiro. Converso com ele e imagino as suas respostas.
Os dias passam entre a cama e o sofá. Ouço as vozes que saem deste novo aparelho que comprei há muitos anos. Conversas que me fazem sentir que, algures, lá fora o tempo passa. As novidades da minha vida já desapareceram. Agora é só deixar o tempo passar, à espera que esse mesmo tempo deixe de me visitar.
Ouvi dizer que estas vozes que saem da caixinha vão ser caladas e é preciso comprar algo ou mudar de aparelho. Não percebo muito bem mas sei que não tenho dinheiro para o fazer.
Velho amigo, vamos ficar em silêncio! Vamos voltar a ser só nós dois, como o fizemos durante 60 anos, no meio das montanhas. Tens saudades do som da água a correr, dos pássaros a cantar e do vento a soprar por entre os ramos, não é? Sabes que ainda os ouço quando fecho os olhos à noite. Nunca mais os ouviste? Tens que imaginar e recordar amigo. A imaginação e as recordações são os impulsos que ainda fazem bater o meu velho coração.
Perguntas se o tempo vai continuar a correr lá fora. Claro que vai. A crise, os acidentes, os roubos, os programas com histórias de vida que antigamente acompanhava-mos através de conversas, aos Domingos, no adro da Igreja.
Nunca gostaste das missas pois não? Eu sei. Preferias as conversas, as notícias do nosso mundo. Seriam menos importantes do que as da caixa. Não creio. Eram pedaços de vida de pessoas com quem nos cruzávamos todos os dias. Se calhar também eram nossas.
Queres saber o que fazes amanhã quando a caixa se calar. Temos que recorrer à imaginação para continuar a viver amigo.
Como a chamas? Vives e revives as recordações, vezes e vezes sem conta. Cada vez que as revives nunca te parecem iguais. Será imaginação, será memória? Não sabemos mas que precisamos delas para viver, precisamos.