Oct 14, 2014

Erro de sintaxe

Um trabalhador de escritório muito atarefado, com um prazo para cumprir, escrevia com intensidade no teclado do computador de seu trabalho o dia todo. Isolado da realidade que o circundava, não comia, não falava nem ia à casa de banho. O teclado e o monitor eram as duas únicas coisas que lhe interessavam naquele momento.
As horas passavam, a altura de jantar já havia passado e o cansaço começava a pesar nos seus olhos. A certa altura o trabalhador ouve uma voz:
-Sinto a tua falta!
O homem tão atarefado que pensava que seria alguém ainda no escritório a falar ao telefone e nem perdeu muito tempo a raciocinar sobre o assunto.
-Ei, pst! Eu estou aqui!
O trabalhador cansado, levanta os olhos e repara que à sua volta, no escritório, estavam todas as luzes apagadas e não havia mais ninguém.
-Esqueceste-te de mim!
O homem pegou nos telemóveis, não vá algum estar ligado por algum motivo e nada. Tudo parado. O tempo corria e ele regressou ao teclado.
-Ei, aqui em baixo do lado direito!
Ai sim, o trabalhador ficou preocupado e de repente no canto inferior direito começou a ver algo que jamais pensou ver em toda a sua vida. O seu rato tinha olhos e boca.
-Estou a endoidecer! Este trabalho está a dar cabo de mim!
Olha para o relógio e eram 23h30m. Tinha até a meia-noite para enviar ao cliente o trabalho sem falta. Tentou assim ignorar o que viu pois o seu stress era superior.
Faltava apenas uma última revisão. Não vá ter feito alguma asneira e ao reler o seu trabalho, o cursor do seu computador começou a mexer sozinho, sublinhando algumas palavras repetidamente:
-Olha para mim!
O homem resistiu e tentou abstrair-se para ler o seu texto com o resto das capacidades que ainda possuía e terminou.
Ao tentar agarrar no rato para gravar e enviar não conseguiu. O rato não se mexia. Parecia que tinha cola e estava preso ao tapete.
Eram 23h55 e o trabalhador já suava. Tirou a mão do rato e reparou que o mesmo tinha os olhos encerrados e a boca fechada, como se estivesse chateado. Num ato de loucura, vira-se para o seu pequeno equipamento e diz:
-Desculpa mas eu tenho mesmo que enviar isto, senão sou despedido!
-O que é ser despedido?- Perguntou o rato.
-Olha é ir para casa!
-O que é casa?
-A casa é o local aonde vives com a tua família.
-O que é família?
-São as pessoas que amas.
-O que é amar?
-Olha é gostar tanto de alguém que não podes viver sem ela ou ele.
-Hum!
-Estás vivo?
-Estou.
-Não amas alguém.
-Sim amo a minha família, claro.
No monitor apareceu um erro que dizia: Erro de sintaxe, não é possível gravar.
O trabalhador chorou de desespero. Cansado sem saber como argumentar o que era óbvio, o que para uma máquina era simples mas para um humano era complicado. Eram 23h58m e agarrou as mãos à cabeça e gritou:
-Já fui!
Sem querer acreditar no seu monitor aparece a o seguinte aviso: O seu ficheiro encontra-se a ser gravado. Agarrou no rato, carregou no “send” e o ficheiro foi entregue às 23h59 no destino.
Respirando de alívio. Desligou tudo e correu em direção a casa. Seus filhos e sua mulher já dormiam. No dia seguinte acordou, agarrou sua esposa e filhos e disse:

-Desculpem o atraso de ontem. Hoje vou tirar a tarde e vou buscar a crianças ao colégio para irmos ao parque brincar e depois vou-te buscar ao trabalho para aproveitarmos o resto do dia.

Oct 12, 2014

Quero não ser o que não vivi

Quero nascer aonde não nasci,
Quero viver aonde não vivi,
Quero ter os pais que não tive,
Quero ter os amigos que nunca consegui.

Quero achar o amor para que nasci,
Quero viver a paixão  para que vivi,
Quero não ter os bens que tive,
Quero não ter os filhos que  consegui.

Quero ter a casa aonde não nasci,
Quero viver a vida que não vivi,
Quero ter a riqueza que não tive,
Quero ter os amores que nunca consegui.

Quero não ser o que  sou,
Quero não viver o que vivi,
Quero não ter o que tive,

Quero não amar o que nunca consegui.

Oct 7, 2014

Lisboa, mulher sempre

Lisboa, idosa moderna em xaile de cantora de fado,
Moça regatada de socas tapadas,
Mulher experiente de corpo de jovem inocente,
Idosa cuidada de espirito gaiteiro.

Lisboa, idosa maquilhada, de manjerico perfumada,
Moça mimada de avental alado,
Mulher tímida em braços de Tejo ardente,

Idosa, criança, jovem amada.

Sep 30, 2014

Tó Tuga, o Grande

Tó Tuga acorda no meio de uma soneca no sofá e afirma:
-Maria! Tive um sonho lindo!
-Sonhaste que ganhavas o Euromilhões?
-Não.
-Sonhaste com a Brigitte Bardot?
-Eu disse que sonhei hoje e não há 50 anos!
-Ai, então?
-Sonhei com o Gandhi!
-A sério? O que ele fez e o que ele te disse?
-Ele estava numa herdade no Alentejo e eu estava à caça aos coelhos. De repente, toca-me no ombro e diz:
-“A grandeza de uma nação pode ser julgada como os animais são tratados”.
-Ai homem! O que respondeste?
-Que ficava para um futuro próximo!
-Então porquê?

-Ora, porque os prazos dos judiciais foram adiados.

Sep 13, 2014

Cegueira do relógio

Eu podia olhar para o passado mas já não o vejo, podia visualizar o futuro mas ainda não aparece, podia ver o presente mas quando pisco os olhos ele já fugiu.

Sep 12, 2014

Tó Tuga, profissional do desemprego

Tó Tuga estava sentado no banco do jardim vestido de fato e gravata quando passa seu primo Zé Torresmos que fica muito intrigado pelo traje, aquela hora, a meio da tarde, durante a semana:
-Ei lá! Vieste de um casamento? Agora está na moda serem a durante a semana. Dizem que fica mais barato.
-Nope!
-Oh! Não me digas que morreu alguém e não me avisaram!
-Também não!
-Então? Foste a uma entrevista de emprego?
-“Nicles!”.
-Ai, então? Resolveste arejar o fato, foi? Oh, pá! Dizias à tua Maria para estender cá fora no varal e não precisavas de vestir. Ainda por cima, hoje está cá uma humidade que se uma “garina” me agarrasse eu escorregava que nem uma enguia.
-Também não! Arranjei um emprego!
-Ein? Então eu vi-te à hora de almoço de chinelos e calções na Tasca do Chinfrim a beber café.
-Estava a na pausa do almoço, agora estou ao serviço!
-Estás a gozar comigo? Estás ao serviço como? Estás com essa “bunda” sentada no banco do jardim!

-Primo, agora eu sou Profissional do Desemprego!

Sep 8, 2014

Tó Tuga, emprego a botões.

Tó Tuga encontrou seu amigo Miguel Roscas que vinha da oficina, depois de um dia de muito trabalho.
-Oh Tó! Ando aqui intrigado e ontem quase te liguei à noite mas não tive tempo.
-Então?
-Ontem passou por lá o Chefe que disse que tu tinhas enviado o CV, pelos correios, novamente para lá mas no fundo da carta havia um botão com um autocolante a dizer “emp. sff”. Ele não percebeu e veio ter comigo, como sabe que te conheço para ver se eu sabia.
-É uma chatice! Não achei botões grandes lá em casa!
-Ãh? Mas tu querias botões maiores para quê?
-Olha para acabar a palavra, não é?
-Oh homem! Tu baralhas-me! Que querias tu dizer?

-Era “Empregue-me, sff!” como o “facebocas” e o “tuitas”. Eles vão por o botão “comprar” e eu pensei: Olha que fixe! Vou mandar um também para ver se alguém me emprega!

Sep 2, 2014

Tó Tuga, porco esganiçado

Tó Tuga estava na fila das finanças lá do bairro com um porco mealheiro de louça debaixo do braço quando passa o seu primo Zé Torresmos que se aproxima e fala baixinho:
-Oh primo! Isso está difícil? Não me tinhas dito nada!
-Ein, então não está? Já viste quanto eu vou pagar de imposto único de circulação! – Exclama chateado mostrando o papel.
-Ui! O problema é mais grave que isso não é? Sabes que podes contar sempre comigo! Eu não tenho muito dinheiro mas podes sempre ir lá a casa comer uma sopinha.
-O quê? Estás a oferecer-me sopa porquê?
-Ora, tu já precisas de pagar o IUC com o porquinho mealheiro! – Diz com um tom baixo para ninguém da fila ouvir.
-Oh! Não é nada disso!
-Então?
-Não é para mim! É para os meus filhos!
-Explica lá isso!

-Eu trouxe o porco para ver se eles comem as crias das cobras que sugam o dinheiro nos impostos. Ao menos as gerações futuras já não são afetadas.

Aug 23, 2014

mexam-se

Em vez de perder tempo à espera de algo ou alguém que faça algo que nos faça feliz porque não usar esse mesmo tempo para fazer nós mesmos qualquer coisa para isso?

Aug 4, 2014

Tó Tuga, bloqueio ao empreendorismo

Tó Tuga foi à oficina e encontra seu amigo Quim Roscas a discutir com o contabilista. Após uns momentos acesos desiste e vem cá fora falar com Tó.
- Estás mesmo zangado! Não me digas que perdeste guito no Bes?
- Não. Tenho é que despedir o contabilista por falta de informação.
-Então?
-Eu quero criar uma nova empresa para transferir as dividas ao fisco e ele diz que não é legal. Ainda ontem ouvi o governador do Banco de Portugal a dizer que era possível. Já viste? Uma pessoa além de perceber de travões também tem que perceber de finanças.