Mar 1, 2015

O orfanato das maças

-Mana, lá vem uma morena agora! Parece simpática!....Apanhou-me, yuppie! Oh! Não foi desta! Olhou para as minhas manchas! Deve ter sido! Se tivesse a pele lisa e sem estas manchas castanhas levar-me-ia!
-Olha, agora vem uma mãe de família! Que linda pequena filha ela tem! Dava uma boa companhia de brincadeira! Oh! Não me levou porque sou gorda demais! Se fosse maneirinha como aquelas ali do lado!
-É agora mana! Vem lá uma Hippie gorducha! Elas de certeza que não se importam com os defeitos dos outros e como é mais cheinha vai-me levar de certeza! Oh! Não me quer porque não pareço natural!
-Mana, passou mais um dia e nós aqui ficámos! Os dias passam, pegam em nós, acariciam-nos e até chegam-nos  a cheirar para confimar se somos perfumadas mas nunca nos levam. Se elas soubessem o que custa ficar aqui, ser rejeitada! Não nos peguem! Ignorem-nos! Não precisam de nos criar expectativas e depois voltarem-nos a por no mesmo sitio. Não sou perfeita! Tenho manchas e sou rechonchuda mas mereço respeito! Pensem nisso! Cada vez que nos pegam e nos atiram novamente para aqui ficamos com mais uma mágoa, mais um pedaço de nós que fica pisado pela desilusão!
A mana, olha para ela e responde!

-Oh! Não ligues! Nós maças, se não formos escolhidas agora vamos servir para fazer doce!

Jan 26, 2015

Quero parar!

Gostava que o tempo parasse,
Que o ponteiro esperasse,
Gostava que o momento para já ficasse,
Que pudesse olhar, viver e repetidamente te amasse.

Queria que os minutos não me fugissem,
Como grãos de areia, por entre os meus dedos não partissem,
Queria ter tempo, para que no tempo me aborrecesse,
Que pudesse parar, para observar para quem amo não me esquecesse.

Dou por mim a ver os minutos passar,
E por dentro gritar para ali ficar,
Dou por mim a pedir para respirar,
Porque sem respirar, apenas vivo para estar.

Cada fase da vida passa como se fosse uma corrida,
Prova que nem da meta queria ter saída,
Não quero correr, quero caminhar,

De mão dada, contigo, para sempre andar.

Jan 22, 2015

Folha em branco quase escrita

Olho para uma folha em branco e vejo tudo,
Tudo o que nada vejo,
Tudo o que nada sinto,
Tudo o que para sempre desejo.

Olho para uma folha escrita e vejo nada,
Palavras vazias e textos ocos,
Imagens bonitas de quase nada,
Notícias forçadas e fatos loucos.

Olho para as pessoas e vejo o quase,
Quase felizes e quase tristes,
Quase invejosos e quase orgulhosos,
Quase a viver e quase a morrer.

Olho para mim e olho para o lado,
O mim é meu e o do lado também seria,
Seria se injustiça não houvesse,

E se o lado para a minha felicidade não importasse.

Jan 20, 2015

A espera de mais que algo

A espera estava sentada num banco do jardim quando aparece a ansiedade e pergunta:
-O que fazes aqui?
-Nada!
A ansiedade, totalmente desconhecedora dessa palavra insistiu:
-Estás sentada no banco do jardim, é porque estás a descansar!
-Não!
-Estás a observar as folhas a cair?
-Nem reparei!
-Estás a apanhar Sol?
-Está Sol, não tinha visto ainda!
-Ai! Estás-me a deixar nervosa! Como é possível estares assim!
-Assim como?
-Assim parada…
-Não estou parada!
-Bem! Tu disseste que estavas a fazer nada!
-Então! Está tudo dito!
-Está tudo dito, o quê?

-Estou aqui a fazer algo: nada! E como tu mesmo concluíste é muito difícil!

Jan 14, 2015

Nada é como se sonha nem tudo é como se teme

A realidade é aquilo o que vejo?
Ou apenas aquilo o que todos vêem?
A minha visão é mesmo o que acontece?
Ou aquilo o que todos dizem?
Realidade! És o que penso?
Ou o que todos pensam que és?
Nada é como se sonha,
Nem tudo é como se teme.
Espera-se para ver?

Não! Espera-se para viver!

Tempo quantos minutos tens?

Paciência, quantos minutos tens?
Tenho tantos quanto tem o tempo.

Ansiedade, quantos minutos tens?
Tenho mais que o tempo tem.

Sonho, quantos minutos tens?
Tenho tantos como a vida tem.

Vida, quantos minutos tens?
Tenho os que tem o meu tempo.

Tempo, quantos minutos tens?

Tenho os minutos que a ti te advém.

Jan 8, 2015

Árvore da confiança

A oportunidade bate à porta da insegurança e diz:
-Preciso da tua ajuda para apanhares as folhas do meu jardim!
A insegurança espantada diz:
-Ãh?
-Não queres ajudar?
-Quero! Achas que consigo?
-Tens duas mãos?
-Tenho!
-Consegues baixar-te?
-Consigo!
-Então, porque não conseguirias?
-Sei lá! Tenho medo!
-Medo de quê?
-Medo de não apanhar as folhas todas, por exemplo.
-E daí?
-Daí não te ajudaria por completo e ficarias triste comigo!
-Então também ficaria triste com a árvore!
-Porquê?

-Porque por cada folha que apanhares deixa cair outra logo a seguir e se eu não confiar que tu apanhaste as que encontraste será como se tu nem passasses por lá para me ajudar!

Jan 5, 2015

Depressão Pós-Natal

Acho o mês de Janeiro, um mês totalmente desinteressante. Há quem se motive com a entrada de um novo ano mas a mim isso passa nos minutos a seguir à meia-noite. Não se passa nada!
Depois eu sofro de depressão pós natal que é uma das minhas alturas preferidas do ano. Se calhar é mesmo por isso. Fico imensamente triste ao desfazer a árvore de Natal. Sinto que cada um dos enfeites que retiro e guardo grita por mim para voltar a sair.
A casa, depois de retiradas as decorações natalícias fica com espaços vazios que já tentei ocupar com decorações de São Valentim, Carnaval, Páscoa e até Santos Populares mas não é a mesma coisa.

Enfim, vamos lá para 2015…ah e tal bom ano para os leitores do Diário!

Dec 18, 2014

Bengala de Natal

Num centro comercial perto de todos nós havia uma menina vestida de mãe Natal a distribuir um mimo a todos os clientes. Estava a dar bolachas em forma de bengala de Natal.
Chegou ao pé de uma senhora idosa que estava sentada e perguntou:
-Deseja uma bolacha?
A senhora acenou com a cabeça que sim.
A rapariga colocou a bolacha em cima da mesa e foi embora.
A senhora quando viu o que se tratava achou tão bonito, embrulhou a bolacha no guardanapo, colocou no bolso e levou para o seu neto.
Quando chegou a casa disse:
-José tenho aqui algo para ti!
O menino ao desembrulhar o doce, os seus olhos brilharam mas passado pouquíssimo tempo ficou imensamente triste.
Sua avó perguntou:
-Não gostaste? Achei tão bonita!

-É muito bonita avó mas…
-Mas o quê?
-Preferia que ao invés de te darem bengalas te dessem novamente capacidade para andar.
As lágrimas, quase caiam dos olhos de sua avó, que já há muitos anos só andava com o auxílio de muletas.

-Meu querido menino! Isso infelizmente já não é possível! No entanto, esta bengala é a mais bela e doce que alguém um dia me ofereceu. Tens que aprender a encontrar o lado positivo nas coisas pois em tudo na vida existirá sempre um lado mau e se olhares sempre para ele nunca irás ser feliz.

Dec 12, 2014

Sonhos de Natal da Pedra

O frade andava de terra em terra a pedir e certo dia bateu à porta de uns lavradores na véspera de Natal que não lhe quiseram dar nada.
-Bem, sendo assim vou fazer um caldo com esta pedra e para sobremesa, dado que e uma noite especial, vou fazer sonhos de Natal sem farinha.
O casal de lavradores já tinha ouvido a história deste frade que fazia um caldo com a pedra mas sonhos sem farinha, estavam curiosos.
-Já ouvimos falar do teu caldo da pedra mas sonhos de Natal sem farinha? Não acredito! – Exclamou logo a senhora, como dona das artes culinárias lá de casa!
-Minha cara senhora! Claro que é possível! Eu explico-lhe se me oferecer um pouco do seu caldinho com um casqueiro, pode ser daqueles que estão ali no saco!
-Ah, esses são para dar na saída da igreja aos pedintes após a missa do galo!
-Obrigada! Pode ser!
A mulher do lavrador encaminhou o frade para a cozinha e deu-lhe uma malga de caldo com o casqueiro duro que lá tinha.
O frade sorveu o caldo mas deixou o casqueiro.
-Então agora que comeu? Explique-me como faz sonhos de Natal sem farinha?
-Oh minha senhora, para tal preciso de ovos!
A mulher foi ao galinheiro e trouxe uns ovos frescos.
-Sim e agora?
-Agora senão se importa um pouco de leite e açúcar.
A lavradora assim fez. Até colocou a frigideira ao lume com óleo e tudo.
O frade lavou a tigela da sopa, partiu os ovos lá pra dentro, adicionou o açúcar e o leite.
A mulher de olhos abertos e mãos na anca:
-Vá e agora?
O frade tirou a pedra da sua bolsa e começou a apedrejar o casqueiro que estava tão rijo que se desfez quase em farinha. Agarrou nas migalhas e colocou-as na tijela. Amassou tudo com as mãos, formou umas bolas e colocou-as na frigideira a fritar.

A senhora espantada não quis acreditar! Jamais pensaria em fazer sonhos com o pão rijo que iria dar aos pobres.

Dec 11, 2014

As decorações de Natal de Peter Pan

Na casa de João, Miguel e Wendy preparava-se o Natal. O que mais gostavam era a decoração da árvore.
Era uma tarefa realizada em família. Estavam todos na sala nessa noite e nunca mais iam para o quarto. Peter Pan tinha entrado pela janela e aguardava os seus amigos para mais uma viagem à terra do Nunca. Intrigado resolveu espreitar pela janela da sala e ver o que se passava. Viu que seus amigos estavam tão felizes que, sentiu um bocadinho de inveja. Queria ir lutar contra o Capitão Gancho nessa noite.
Contudo os seus amigos estavam tão entusiasmados que ficaram cansadíssimos com a animação. Adormeceram todos no sofá em frente à árvore de Natal. Seus pais levaram-nos ao colo para a cama para dormirem.
Aborrecido, Peter Pan, consumido pela inveja, entrou na sala da família Darling e ficou a olhar para a árvore de Natal intrigado. Na terra do Nunca havia coisas muito mais interessantes que aquela árvore. O que era aquele brilho das luzes comparado com o brilho da Sininho, por exemplo. Então teve uma ideia, pegou num bloco de desenho que estava perdido na sala e desenhou cada um dos personagens da terra do Nunca. Desfez a árvore da família e colocou os seus desenhos.
-Agora, sim está linda!
Não contente com a sua obra foi até ao quarto dos seus amigos e acordou-os para ver a sua surpresa.
Quando os seus amigos chegaram cá abaixo meio estremunhados ao contrário do que Peter pensou ficaram muito tristes.
-O que fizeste Peter? – Perguntou Wendy.
-Não acham que esta árvore está mais bonita que aquela que tinham?
Voou para o lado da árvore e apontou para um desenho:
-Olhem o gancho! Não está o máximo!
-Peter! Destruíste a nossa árvore!
-Eu não a destrui! Apenas a tornei mais bonita e animada! Aquelas bolas e luzes eram muito aborrecidas!
-Não entendes, pois não?
-Entendo o quê?
-A árvore é bonita porque é feita com os nossos pais que quase nunca estão connosco. Será sempre bonita por isso mesmo!
Peter franziu o sobrolho.
-Mas não gostam desta?
-Mana e árvore que fizemos com os nossos pais? Eles vão ficar tristes!
De repente, a estrela do topo da árvore começou a brilhar e transformou-se na Sininho que começou a voar à volta da árvore, às voltas, às voltas, tanto que deixou as crianças tontas. Tão tontas que tiveram que fechar os olhos para não cair. Quando voltaram a abri-los a árvore voltou a ser como era.
As crianças ficaram tão felizes que até os seus olhinhos brilhavam:
-Obrigada, Sininho! – Disse a Wendy.
Peter agarrou nas mãos dos seus amigos e voaram até ao quarto.
-É melhor irem dormir! Já é tarde! – Mandou a Wendy.
Peter Pan esperou que eles adormecessem. Viajou até à terra do Nunca e trouxe de lá um pinheiro, plantou-o numa concha gigante cheia de terra, colocou-o no quarto de seus amigos e decorou-a com os seus desenhos.

Quando eles acordaram viram a prenda que Peter lhes tinha deixado. Ele tinha percebido que tudo na vida tinha um lugar próprio, a família e os amigos.