Nov 19, 2009

Vícios



A vista de aqui de cima é fantástica e nos dias em que o tempo permite planar é melhor ainda. Consigo encontrar comida e brinquedos com o mínimo de esforço.
A minha colecção de coisas giras e as conversas com os vizinhos são os meus passatempos preferidos. Não consigo resistir ao brilho de um objecto nem a uma novidade bem interessante. Sempre que posso, paro numa árvore ou até mesmo no chão e converso um pouco. É assim que aguento as dezenas de anos que pesam nas asas deste velho corvo. Ainda me lembro de quem traiu as avós e quem roubou os pais da vizinhança.
Esta minha curiosidade pelas novidades da vida alheia não me permite guardar segredos. As penas fazem-me cócegas quando alguém me diz: “ Não contes a ninguém!”. Não é por isso que não tenho amigos. Quem não quer que se saiba não conta.
Aprendi esta lição no ano passado com a galinha preta: um dia ela contou-me que desconfiava que a pata branca andava metida com o galo porque, apareceram ovos mais pequenos do que o resto das patas num dos ninhos aonde ela costumava dormitar.
Eu achei o facto histórico, já tinha ouvido casos acerca da existência de relações entre as raças do galinheiro mas nunca tinha presenciado uma. Não consegui conter a novidade e contei assim que pude. Foi o pior erro que alguma vez fiz. Quando a pata branca soube desatou a chorar e confessou que como nunca tinha conseguido pôr ovos ajudava as galinhas a chocar os delas.
Todos temos defeitos. Não significa que não sou bom corvo apenas não sou guardador de segredos e agora aviso a quem se dirige: “Se ao povo não queres contar, deixa-te no segredo ficar.”

Nov 17, 2009

O meu amigo "Xixas"


Foto: net

A rotina era sempre a mesma: o agricultor acordava com o som do galo da quinta, após um rápido pequeno-almoço, seguia em direcção ao estábulo para alimentar uns animais e levar outros até ao pasto.
Contudo naquele dia, algo de novo aconteceu: enquanto pastava senti algo a mexer nos arbustos. Primeiro pensei que seria o vento ou até o meu amigo rato do campo que nos costumava visitar mas, o ruído continuava e ninguém aparecia. Os pêlos da minha crina começaram a arrepiar-se de receio. Pensei:
-O que será de mim, sozinho neste terreno. O meu dono só regressará quando o Sol se esconder atrás do monte…
O som repetia-se e o medo fez-me lembrar uma conversa que tive há uns anoscom o meu pai:
- Filho, nunca te aproximes dos arbustos no Verão. Existe um grande inimigo: a cobra.
- Pai, o que é uma cobra?
- É um gigante, com uma língua venenosa que quando pica as nossas patas, adormecemos para sempre.
Nunca percebi o que era adormecer para sempre até ao dia em que o meu pai desapareceu enquanto dormia. Nunca mais o vi. Deve ter sido uma cobra, pensei.
De repente, os meus pensamentos foram interrompidos por uns olhos pequenos que saíram debaixo do arbusto. Um corpo esguio aproximou-se de mim, com algum receio. Nunca tinha visto uma minhoca tão grande. Perguntei:
- Olá, que animal és? Nunca te tinha visto. És uma minhoca?
- O que é uma minhoca?
- É um animal comprido que vive debaixo da terra.
-Não “xei xe xerei” uma minhoca, todos me chamam por “Xixas”.
Que engraçado, pensei. Ele tem uma fala estranha mas divertida.
- Que fazes por aqui?
- Tenho frio, muito frio à “Xombra”. Procuro o “Xol” para me aquecer…
A conversa prolongou-se pela tarde fora. Falaram sobre tudo e tornaram-se grandes amigos. Faziam companhia um ao outro, dias a fio, naquele vale deserto até o agricultor chegar. De manhã, assim que o Sol começava a aquecer “Xixas” lá chegava para mais um dia de grandes diálogos. Por vezes, nada havia para dizer, apenas olhavam para o outro e aproveitavam o calor do Verão.
Uma tarde o agricultor chegou mais cedo que o costume e viu o “Xixas” numa pedra junto a mim. A raiva apoderou-se do seu rosto e com uma expressão no olhar de receio, pegou noutra pedra e atirou ao meu amigo, que não conseguiu escapar.
Foi a última vez que o vi. No dia seguinte o seu corpo ainda lá estava, mas os “x´s” calaram-se para sempre. O “”Xixas” adormeceu para sempre e finalmente descobri quem era a cobra que fazia dormir sem retorno.

Nov 12, 2009

Vida de ouriço


O vento soprava do alto da montanha naquela manhã fria de Outono. A temperatura tinha baixado desde as chuvas fortes da semana passada. Vieram tardias as águas este ano para resolver o sufoco da secura do aquecimento global.
No topo de um castanheiro, tentando manter-se seguro, um ouriço acordava com mais uma dúvida típica da sua inocência juvenil. No vale, os grandes sábios adquirem a sua sapiência com a vida. A maturidade é atingida por volta do primeiro século por isso são eles que satisfazem a curiosidade dos mais pequenos.
-Pai, dói-me o caule do esforço. O vento abana-me com tanta força, acho que não vou conseguir aguentar e vou cair…Será que vou morrer?
O erudito castanheiro, esticando os seus envelhecidos galhos, respondeu:
-A morte para nós não existe, meu pequeno. Vais cair e adormecer entre minhas folhas.
Entretanto, uma forte rajada de vento estremece o tronco e faz cair o ouriço. A queda foi intensa e a dor tremenda. O pequeno sentiu a pele a estalar e alguns dos seus picos a partir. Pensou que era o fim e começou a chorar quando as suas castanhas que guardava à tanto tempo saltaram para fora. No meio dos soluços gritou:
- Como vou dormir? Mentiste-me! Deixaste-me cair e eu perdi as minhas filhas!
-Os filhos não se perdem, fazem parte de nós e são uma extensão de nós mesmos. As tuas filhas irão gerar outro castanheiro como eu. Não chores! Entrega-te á vida e não temas pelos, que dela já não fazem parte pois deixaram um pedaço de si com os outros.